
O sistema de cicatrização do corpo humano é incrivelmente potente, capaz de cicatrizar a grande maioria das feridas, sejam elas desencadeadas por traumas ou cirurgias. Mas quando esse processo falha, o que está acontecendo com o organismo?
Em alguns casos, após um pequeno trauma, surgem feridas ulceradas ou escurecimento de um dedo. Nesses casos, o organismo se encontra impossibilitado de promover a cicatrização, provocando a permanência do ferimento ou até seu crescimento. Essa paralisação no sistema de cicatrização ocorre, na maioria das vezes, pela ação de um fator inibidor — e o fator que mais frequentemente dificulta a cicatrização são as alterações na circulação.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), estima-se que as úlceras de membros inferiores afetem entre 1% e 2% da população adulta, com prevalência ainda maior em idosos. Compreender a causa é o primeiro passo para um tratamento eficaz.
O problema circulatório é responsável pela maioria das úlceras localizadas nos membros inferiores. Ele decorre de uma dificuldade no retorno venoso, promovida por fatores como genética, trombose nas veias, profissões que exigem longos períodos em pé ou sentado e ausência de atividade física regular. Esses fatores, em conjunto ou isoladamente, dificultam que o sangue retorne ao coração e acabam provocando seu acúmulo nos membros — dando origem às chamadas úlceras venosas.
O diabetes é a segunda causa mais frequente de feridas que não cicatrizam. Ele age de diversas formas, tanto no sistema circulatório quanto em outros sistemas: provoca maior risco para infecções, perda da sensibilidade dolorosa (fazendo com que complicações graves passem despercebidas), problemas na microcirculação e, em alguns casos, obstrução nos vasos maiores. Devido à integração de todos esses efeitos, o pé diabético tornou-se motivo de grande estudo e preocupação — essa população apresenta risco elevado para a perda de um membro, seja um dedo ou até mesmo a perna inteira.
A causa circulatória mais grave é chamada de isquemia crítica. Muitas vezes silenciosa, ela retarda o diagnóstico e pode levar a amputações maiores, como as de coxa. Nesses casos, em decorrência do tabagismo, diabetes, colesterol elevado e outros fatores, as artérias que levam sangue rico em oxigênio e nutrientes começam a apresentar estreitamentos (estenoses) ou até obstrução total do vaso.
Sem o fluxo adequado de sangue, o membro sofre com a falta de oxigênio e nutrientes, gerando dores intensas e o surgimento de áreas escuras no pé ou nos dedos. Esse mecanismo se assemelha ao que ocorre no coração durante um infarto. O tratamento pode envolver cateterismo para identificar os vasos comprometidos, seguido de angioplastia ou ponte de safena para restabelecer o fluxo. Saiba mais sobre esse tipo de ferida: Úlcera arterial — ferida difícil de cicatrizar.
Além das causas vasculares e do diabetes, existem outros fatores que impedem a cicatrização. Um exemplo comum são as escaras — placas escurecidas que surgem em pacientes acamados. Trata-se de úlceras por pressão, decorrentes da falta de suprimento sanguíneo em áreas que permanecem em contato prolongado com superfícies sem a devida mudança de posição (decúbito). Sem oxigenação adequada, o tecido se deteriora.
O tratamento de feridas que não cicatrizam deve ser realizado por equipe treinada, capaz de identificar os fatores que estão impedindo a cicatrização — atuando tanto no cuidado local da ferida quanto no encaminhamento médico quando necessário. Uma ferida que não fecha em até quatro semanas já é considerada crônica e precisa de avaliação especializada.
Se você quer entender melhor os tipos de feridas e o processo de cicatrização do corpo, leia também: O que são feridas? Entenda os tipos e a cicatrização.
Dra. Patrícia Cariry – CRM/PB 5372